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Edição nº7
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Por Wanise Ferreira
Ilustrações Valentina Fraiz

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Atrás da bola, muita inovação.


A expectativa é de que entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões sejam aplicados em tecnologia da informação e comunicação

Uma audiência estimada em quase 4 bilhões de pessoas em todo o mundo terá sua atenção voltada para 64 jogos que ocorrerão em 12 cidades durante a próxima Copa do Mundo, em 2014. Para o Brasil, se tudo der certo, haverá muito mais motivos de comemoração do que uma desejada vitória da Seleção Brasileira jogando em casa. O país tem em suas mãos a chance de impulsionar o crescimento econômico, modernizar sua infraestrutura, atingir um novo patamar na prestação de serviços, expandir o nível de digitalização de suas principais cidades e estabelecer novas políticas públicas. E se o cenário já é positivo para diversos setores, a área tecnológica está entre aquelas que recebem as maiores contribuições pelo fato de o país sediar megaeventos esportivos.

Os números com os quais o governo vem trabalhando para a Copa do Mundo 2014 são promissores. Segundo os dados do Ministério dos Esportes, o megaevento poderá agregar R$ 183 bilhões ao PIB brasileiro até 2019, uma taxa anual acima de 0,4%. Desse valor, o governo considera R$ 47,5 bilhões em investimentos diretos, levando em conta recursos na infraestrutura, gasto incremental dos turistas e aumento do consumo das famílias. E mais R$ 135,7 bilhões contando com a recirculação do dinheiro na economia e ações pós Copa, como, por exemplo, aumento do turismo no país e uso dos estádios em outros eventos.

Um estudo feito pela A.T. Kearney, a pedido da Brascomm (Associação Brasileira da Indústria de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação) e da Telcomp (Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas), estima que haverá R$ 57 bilhões de investimentos – sem considerar o trem bala – dos quais 10% serão voltados para TIC, tanto diretamente, em infraestrutura, sistemas de transmissão de dados, imagens e vídeo, telefonia, e outros pontos, quanto indiretamente, com tecnologia embarcada. O Sinditelebrasil trabalha com a perspectiva de investimentos de R$ 3,8 bilhões em tecnologia.

“A preparação da área de tecnologia de informação para a Copa será muito importante para o futuro do país”, observa Artur Coimbra de Oliveira, diretor de banda larga da Secretaria de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “Haverá uma mudança de patamar no desenvolvimento das tecnologias no país”, aposta Francisco Carlos Monteiro Filho, diretor do Sinditelebrasil.

Mas é nessa mesma área que residem algumas críticas aos investimentos da Copa 2014, muitas delas baseadas em uma possível marginalização da área de TIC nos projetos em andamento. “O principal legado na área de TIC é o desenvolvimento local de conteúdo específico para a Copa. Este aspecto, embora faça parte dos objetivos, ainda não possui sequer um plano de ação”, salienta Roberto Mayer, vice-presidente da Assespro (Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação) nacional. “Temos a preocupação que essa área fique para a última hora. E seria importante que acontecesse antes porque nesse processo o país poderia ter avanços regulatórios muito importantes”, completa João Moura, presidente executivo da Telcomp. No estudo da A.T.Kearney é identificado um atraso de pelo menos seis meses na definição dos sistemas de TIC que irão suportar a Copa do Mundo.

“Ainda estamos no timing certo”, rebate Augusto Carvalho, executivo de Smarter Cities da IBM que tem acompanhado o processo bem de perto. Nomeado para o cargo de gerente de desenvolvimento de negócios para a Copa 2014 e Olímpiadas 2016 pela Motorola Solutions, Joeval Martins reforça o coro dos otimistas. “Estamos vendo o alinhamento de todas as esferas administrativas que estão trabalhando nos projetos e tem muita gente empenhada em fazer dar certo”, completa. Oliveira, do Minicom, se mostra tranquilo em relação às críticas de atraso para definição das TICs na Copa do Mundo. Ele considera que o mais pesado dos investimentos dessa área faz parte, na verdade, do segundo ciclo do planejamento feito pelo Ministério dos Esportes e que está em fase final de elaboração. Na primeira etapa, são contemplados investimentos de R$ 23,8 bilhões para 94 projetos de infraestrutura nas áreas de mobilidade urbana, estádios, aeroportos e portos. A terceira e última fase diz respeito à operação.

Rodrigo Uchoa, diretor de novos negócios da Cisco, que está com sua atenção concentrada nos futuros eventos esportivos, estima que nessa primeira fase, nos projetos dos estádios, serão gastos algo próximo a R$ 400 milhões com TICs. “Todos os estádios obedecem a rígidas determinações da Fifa para implantação de TICs”, comenta Rodrigo Meira, da Value Partners e consultor do Ministério dos Esportes via Consórcio Copa 2014. Ele diz que ainda não há orçamento previsto para o segundo ciclo, onde estão novas, e mais caras, demandas, como cobertura móvel, redes de fibras ópticas, broadcasting e construção de data centers.

No âmbito das câmaras temáticas criadas pelo Ministério dos Esportes, a área de tecnologia não parece ter o status que desejam os especialistas desse mercado. Denominada “Promoção Comercial e Tecnológica”, a sua comissão trata de propostas de ações comerciais para ampliação de exportações, atração e estímulo de investimentos, promoção de produtos brasileiros e, finalmente, a utilização da Copa 2014 como “plataforma de inovação tecnológica”. As câmaras foram criadas como espaço de discussão de políticas públicas e soluções técnicas entre representantes do governo federal, das cidades-sede (estados e municípios), e, se for o caso, da sociedade civil e entidades de classe.

Mobilidade e redes sociais
Em termos tecnológicos, os megaeventos esportivos representam algum tipo de inovação em maior escala. Da Copa de 1966, quando a Europa assistiu pela primeira vez os jogos ao vivo transmitidos por satélite, passando pela de 1970, com a primeira transmissão ao vivo dos jogos a cores, e pela de 2002, com o WiFi suportando  nos estádios a transmissão de imagens em menos de dois minutos, chegamos à de 2010, com a estreia da transmissão ao vivo pela internet.

Na África do Sul também foi o momento das redes sociais se apresentarem com estrondo na “cobertura” da Copa do Mundo. Um gol era comentado no Twitter em dez segundos. Em 30 dias, o endereço da Fifa no microblog conquistou 220 mil seguidores. Foram 2,7 bilhões de espectadores, dos quais 2 bilhões pela TV e 700 milhões pela Internet. Se havia dúvidas sobre a multiplataforma que estava sendo adotada pelos que se interessavam pelos jogos, os números começavam a comprovar o contrário.

E, nesse espaço, a mobilidade mostrou a que veio: A operadora móvel sul africana MTN registrou 40% de aumento no tráfego de dados na sua rede durantes os 30 dias do evento. A empresa vendeu cerca de 600 mil SIM cards para turistas, que falaram em sua rede durante todo o dia. Foram enviados 1 Terabyte de dados, incluindo 10 milhões de mensagens com fotos.

A Vodafone aumentou 40% o uso de SMS, atingindo um total de 600 milhões de mensagens enviadas. Uma única estação radiobase da operadora chegou a ter uma expansão de 500% no seu tráfego. A Cell C calcula que teve um aumento de 70% no movimento de sua rede, principalmente com chamadas de roaming.

“No ano passado já durante os jogos de Inverno, em Vancouver, tivemos uma amostra do que estava por vir. Foram transmitidas 25 mil horas de vídeo pelos meios tradicionais e iguais 25 mil horas pelos meios digitais, das quais 6 mil horas em telefones móveis”, observa Michele Naili, consultora da área de TV com experiência na cobertura de grandes eventos. Para ela, não há dúvida de que a Copa 2014 será o grande evento da mobilidade. Mas as expectativas para a telefonia móvel na próxima Copa vão além da transmissão de imagens e vídeos pelo celular. Muitos esperam que os smartphones também venham a ser utilizados como uma importante ferramenta na prestação de serviços como dinheiro móvel, transferência de recursos e aplicações baseadas em localização.

O Ministério das Comunicações quer que as 12 cidades-sedes da Copa, e talvez as demais subsedes que podem elevar para 30 o número de localidades, tenham pelo menos 80% de cobertura territorial com o LTE (Long Term Evolution). Para que isso funcione, o ministro Paulo Bernardo tem reiterado sua promessa de realizar até abril do próximo ano o leilão das faixas de frequências de 2,5 GHz para a implantação da quarta geração de telefonia móvel no país.

Paulo Bernardo afirma que as empresas que vencerem as licitações terão até um ano para iniciar os serviços com as novas plataformas nas cidades-sede. Isso pode elevar a taxa de velocidade da banda larga móvel para até 6 Mbps. Se cumprido seu cronograma, pode dar tempo de testar essa tecnologia em maior escala na Copa das Confederações, que será realizada no país em junho de 2013.

Ainda quando se trata de mobilidade, há outras questões pendentes que estão na mira do ministro. Uma delas diz respeito às tarifas de roaming internacional. Segundo Bernardo, a intenção é iniciar logo os estudos que promovam a redução desses valores, permitindo que preços “menos exorbitantes” sejam cobrados dos turistas que visitarem o país durante a Copa.

O exemplo de Londres, que irá sediar as Olimpíadas no próximo ano, vem sendo citado com mais freqüência quando se trata de um outro ponto importante para garantir o acesso à internet dos dispositivos móveis. Naquela cidade, a Prefeitura está implantando conexão WiFi em 120 das 270 estações do metrô. E está vendendo isso como uma marca importante dos jogos, mesmo que essa solução tenha sido adotada pela desistência das operadoras de cobrirem com suas redes as linhas do metrô.

“Em algum momento o WiFi terá de ser considerado seriamente como uma alternativa para o tráfego de dados durante a Copa do Mundo”, observa Uchoa. Por enquanto, não há sinais no horizonte de uma grande movimentação nesse sentido. A mais recente foi a compra da Vex pela Oi. E, da parte do governo, o anúncio de que os aeroportos brasileiros terão internet gratuita, via hot spots, medida ainda não totalmente implementada e que está sendo testada pela Infraero.

A Anatel deu sua contribuição para diminuir alguns gargalos. Realizou a licitação para a licença de uso de quatro posições orbitais de satélites que vão iluminar o Brasil nos próximos anos. Duas foram adquiridas pela Hughes, por meio da sua subsidiária HNS Americas, e uma delas com o mais alto ágio do leilão, de 3.578,82%. A vencedora das outras duas ofertas foi a Star One, da Embratel, que já conta com seis posições orbitais no país.

Velocidade na banda larga
Mas a possibilidade de expandir a velocidade da banda larga nas cidades-sedes tem sido uma das maiores bandeiras de Paulo Bernardo quando se trata de Copa 2014. Ele fala em conexões que podem chegar a  até 100 Mbps nas cidades-sede. Para isso, garante que a Telebras estará no comando da infraestrutura dessa rede de alta velocidade que ficará como legado para a estatal nos próximos anos. O investimento nessa infraestrutura está estimado em R$ 200 milhões, com recursos do PAC.  

Ao colocar a Telebras como protagonista da oferta dessa capacidade, Paulo Bernardo, na verdade, está atendendo a um compromisso assumido pelo governo Lula com a Fifa para garantir a escolha do país como sede da próxima Copa do Mundo. No artigo 11 do acordo efetuado é dito que “o Ministério das Comunicações assegura que será disponibilizada à Fifa e demais usuários uma rede de infraestrutura que atenda aos requisitos e que esteja de acordo com as mais avançadas tecnologias”.

A questão se tornou polêmica porque, para realizar esses investimentos, o governo entende que deve cobrar o uso dessa capacidade da Oi, que venceu a disputa para se tornar a provedora oficial de serviços de telecomunicações da Copa. No entanto, o contrato da Oi, estimado em US$ 300 milhões,deverá ser pago parte em dinheiro e parte em serviços. O nó está no fato de que a  Fifa se recusa a descontar do valor devido à operadora qualquer pagamento pelo uso da infraestrutura, uma vez que entende que ela deva ser oferecida “de graça” pelo governo.

“Há uma linha muito tênue entre o que é serviço e o que é infraestrutura”, comenta Oliveira, do Minicom. Essa é uma maneira polida de dizer que haverá muita pressão na rediscussão da matriz de responsabilidades que já tem vários encontros agendados pela frente. Um acordo, com Oi e governo cedendo um pouco, não está totalmente descartado. Paulo Bernardo, mesmo que contrariado com o entendimento das responsabilidades do Minicom, procura demonstrar tranquilidade ao dizer que essa rede poderá ser oferecida a terceiros no futuro e gerar receitas para a Telebras.

Entretanto, esse desafio não é dos mais fáceis. “A Telebras terá que redesenhar sua rede que estava sendo concebida apenas como suporte ao PNBL (Plano Nacional de Banda Larga”, comenta Uchoa, da Cisco.

Expert em grandes eventos pela Ericsson, Tas Koutes sabe que um dos maiores desafios é, justamente, o de prover capacidade e cobertura em larga escala. E foi isso que ele acompanhou durante os preparativos da Copa na África e em eventos anteriores. São vários pontos que vão necessitar de atenção, como a cobertura indoor e nos estádios, redes de fibra óptica de alta velocidade, com infraestrutura de cobre como redundância, e suporte a um tráfego explosivo durante 30 dias, sem poder falhar. Um dos pontos nervosos é o International Broadcast Center que vai reunir cerca de 3 mil jornalistas no Rio de Janeiro, berço da Oi, e que terá de garantir o funcionamento de toda uma parafernália eletrônica e de transmissão de imagens e vídeos de alta definição que serão divulgados para todo o mundo. A expectativa é de que um altíssimo volume de dados seja enviado para diversos países, volume até agora sequer estimado.

“A rede é a parte mais crítica e isso diz respeito à maneira como ela é projetada e conectada para garantir redundância e manter-se operando. Justamente por isso é necessário uma infraestrutura potente”, observa Phumlani Moholi, diretor de TI e Telecom do comitê organizador da Copa da África, que esteve no Brasil para falar de sua experiência.

Na Copa 2010, os investimentos nessa infraestutura ficaram a cargo da operadora Telkon, que deu suporte nacional para os serviços de telecomunicações. “A Telkon bancou os investimentos porque tinha interesse nisso. Esses recursos já estavam no seu plano de negócios para expansão no país”, comenta Uchoa. Isso não quer dizer que para a Fifa o processo possa ser semelhante no Brasil.

“Como já escutei várias vezes de membros da própria Fifa, cada Copa é diferente da outra”, diz o executivo. Com a previsão de 600 mil turistas estrangeiros e 3 milhões domésticos, o país precisa apresentar uma infraestrutura de banda larga independente dos compromissos firmados entre governo e Fifa e que envolva outras operadoras, além da fornecedora oficial dos serviços. O Sinditelebrasil projeta investimentos do setor, até 2014, da ordem de R$ 22 bilhões em banda larga fixa e móvel para conquistar 57,3 milhões de clientes, sem considerar incentivos governamentais. Com alavancas para essa expansão, os investimentos poderão chegar a R$ 30 bilhões e atingir 78 milhões de conexões.

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