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WIRELESS MUNDI | Nº5 | set 2010



Uma questão de cidadania

O uso das redes sociais pelos governos ainda é burocrático e pouco interativo. Falta estimular uma participação mais ativa dos cidadãos.


O fenômeno das redes sociais invadiu a internet, tomou conta das relações pessoais na rede, abriu espaço para um novo nicho na publicidade e, em um movimento natural, chega à esfera governamental. É comum ver nos portais das administrações públicas links para Twitter, Orkut, Facebook, Youtube. São quase 40 milhões de brasileiros conectados, 87% dos quais participam de alguma rede social, segundo relatório da Ibope/Nielsen.

Mas o que se tem feito para incluir o cidadão, o principal interessado nesse novo canal de diálogo com autoridades? Praticamente nada. Pelo menos é o que dizem os especialistas. “Salvo alguma iniciativa particular, entendo que o uso das redes no âmbito governamental ainda se apresenta mais como uma ferramenta de marketing”, observa Gilda Anjos, pesquisadora e integrante do grupo Comunicação e Sociedade do Espetáculo, da Faculdade Cásper Líbero. Como exemplo, cita que os conteúdos do governo do estado de São Paulo nas redes sociais são clara propaganda governamental. “Elas divulgam as obras feitas e a serem inauguradas ou notícias do site, que não precisariam ser repetidas.”

Serviços de e-gov
Certamente há um longo caminho a ser percorrido para o uso interativo das redes sociais pelos governos. Mas vale a pena insistir nessa direção pois, na avaliação de Tânia Bueno, presidente do Instituto Inteligências para Governo Eletrônico (I3G), as redes sociais poderão ser uma importante ferramenta para ampliar o uso dos serviços de e-gov. De acordo com dados da 5ª edição da pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Centro de Estudos sobre Tecnologia da Informação e da Comunicação (Cetic.br) do Comitê Gestor da Internet, apenas 27% dos internautas brasileiros utilizaram algum sistema de e-gov. em 2009, um índice considerado muito baixo. O uso das redes sociais pode fazer a diferença porque, na avaliação de Tânia, não só são um caminho sem volta, como resgatam a vontade de comunicação e expressão do cidadão. “A participação ativa é uma questão de educação, de exercício de cidadania”, pondera a presidente do I3G.

Ou seja, a tendência, mesmo que a evolução seja lenta, é de os conteúdos postados por governos nas redes sociais começarem a ser debatidos pelos seus seguidores, os cidadãos. “Os governos têm medo dessas ferramentas, mas eles cedem a movimentos de massa”, avalia Tânia. Afinal, os brasileiros já respondem por 11% de todos os tweets mundiais (o equivalente a 2,2 milhões de tweets), o Brasil é o quarto da lista no uso dessa rede social, atrás de Estados Unidos, Japão e Indonésia, e o português é a terceira língua mais popular no serviço, segundo dados da consultoria Sociotest.

Primeiros movimentos
A experiência dos governos com as redes sociais ainda é limitada, mas já revela alguns bons exemplos – e outros, mais numerosos, não tão bons, como as iniciativas de usar as redes como um “quadro de avisos eletrônico”. Entre os primeiros está o Ministério da Saúde, que desenvolveu uma ação específica para orientação à população sobre a prevenção e tratamento da gripe suína, usando como mote a campanha nacional de vacinação. A coordenadora de comunicação interativa do órgão, Fernanda Scavacini, explica que a equipe atua para identificar dúvidas, repassar informações e ouvir a população quanto à qualidade e à efetividade da ação pública. A ação relativa à gripe suína foi desenvolvida depois que se identificou uma enorme demanda por informações sobre o tema.

Hoje, somente no Twitter, o Ministério da Saúde tem quase 20 mil seguidores ativos e o uso das redes sociais, como relata Fernanda, citando o exemplo da gripe suína, tem dado resultados muito eficientes: “Avisados em tempo real da falta de agulhas em um posto de saúde em São Paulo, o que impedia a continuidade do trabalho, tínhamos como checar e corrigir o erro imediatamente.”
Além da intervenção na qualidade do serviço, as redes possibilitaram ao ministério minimizar boatos que, normalmente, circulariam por anos na internet, como a informação de que a vacina contra a Influenza H1N1 seria letal. “Recebíamos vários e-mails por dia. Até o ministro repassava para a gente.

Depois de um mês esclarecendo a população, isso parou”, comemora a coordenadora.Para Ricardo Kadouaki, gerente de informações da Fundação Prefeito Faria Lima (Cepam), órgão do governo de São Paulo fundador da Célula de Inovação do Município (CIM), a rede veio para modernizar e agilizar a instituição pública. “O poder público tem que se modernizar para atender a velocidade da internet. Mesmo que não queira, qualquer um de nós já está na internet”, avalia ele.

Rede própria
Criada em outubro de 2009, a CIM é uma rede que reúne gestores municipais para discutir temas de interesse direto da administração pública. Já são cerca de 2.500 integrantes, entre prefeitos, secretários, funcionários públicos, representantes de organizações da sociedade e moradores. “É como se fosse um Orkut adaptado às nossas necessidades”, compara Kadouaki. Por meio da CIM, a Cepam – responsável por políticas de formação e qualificação de gestores municipais – tenta se aproximar do seu público e agilizar o atendimento aos seus parceiros, além de promover a integração entre eles. “Nosso objetivo é que, no futuro, a Cepam seja apenas mais um integrante da CIM. Queremos que a rede ganhe vida própria. O sucesso da CIM não é medido pelo número de integrantes”, afirma Kadouaki.

Hoje, os instrutores de diferentes áreas da Fundação trabalham como articuladores e provocadores do debate entre os integrantes da rede. Publicam notícias de interesse e estão aptos a responder dúvidas dos internautas. A CIM conta com 123 grupos de discussão. A maioria reúne moradores de cidades do interior paulista mas há também grupos sobre temas específicos, como saúde, educação a distância, cooperativismo e software livre, por exemplo.

Com a experiência na CIM, a prefeitura de Adamantina, cidade no Oeste paulista, criou um grupo de discussão sobre gestão cultural de municípios. As propostas discutidas pelos internautas foram levadas à Conferência Estadual de Cultura. Este sub-grupo é tido pela Cepam como um “filho” da CIM. A rede também atua na solução de problemas do dia-a-dia, como dúvidas sobre regras de licitação para compra de material.

Segundo Kadouaki, a montagem da rede representou uma “quebra de paradigma” na cultura organizacional da Fundação, acostumada aos trâmites normais da burocracia. “Ainda há um processo de adaptação interna muito grande”, diz ele. Os funcionários foram treinados para atuar na CIM e fizeram capacitação com gestores municipais. Nesse processo, diz Kadouaki, importante foi o comprometimento da direção da Cepam com o projeto e o investimento na comunicação interna.