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Por Rosa Sposito

Aplicações
Prontuário eletrônico para melhorar a saúde
Em dois anos, 80% dos pacientes terão seus dados médicos em um banco de dados – e eles poderão ser acessados de qualquer ponto do país.
Quando adotou o prontuário eletrônico – peça fundamental do sistema de gestão de sua rede básica de saúde –, o município de Tatuí, São Paulo, sentiu um impacto imediato: a quantidade de atendimentos de enfermagem em suas unidades aumentou 54%, já no primeiro ano. Em Belo Horizonte, a racionalização da distribuição de medicamentos propiciada pela informatização da rede pública de saúde – e pelo prontuário eletrônico – trouxe uma economia que hoje permite atender um número de pacientes 40% maior.
Esses são apenas dois exemplos de benefícios que já estão sendo obtidos no país com a implantação do prontuário eletrônico, um recurso que o Datasus, departamento responsável pelas áreas de TI e telecom do Ministério da Saúde, quer expandir para todos os municípios brasileiros. “Estamos trabalhando na implantação do prontuário eletrônico nacional, de modo que o cidadão possa acessar suas informações e ser atendido em qualquer unidade básica de saúde do país”, afirma Augusto Gadelha, diretor do Datasus.
Para isso, cada brasileiro cadastrado no Sistema Único de Saúde (SUS) terá um cartão de identificação – o Cartão Nacional de Saúde – e, também, um espaço reservado no portal da saúde, que o Datasus está construindo na web. Com o cartão, esse cidadão poderá ser atendido em qualquer unidade do SUS do território nacional. Já o portal da saúde permitirá o acesso a informações do prontuário eletrônico desse paciente (algumas abertas; outras fechadas), também de qualquer ponto do país.
A base do prontuário eletrônico nacional será o Sistema Integrado de Gestão de Atendimento – SIGA, utilizado desde 2005 pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. O sistema começou a ser desenvolvido com recursos do Ministério da Saúde, que passou o código-fonte para a Secretaria paulistana – que, por sua vez, criou o SIGA/SP. Agora, por intermédio de um acordo de cooperação tecnológica assinado em abril, o código-fonte do sistema voltou para o Ministério da Saúde, que vai utilizá-lo como ponto de partida no projeto de expansão do cartão SUS e de implantação do prontuário eletrônico nacional.
“Cada um de nós, no Brasil, terá um espaço no portal da saúde, no qual estarão registrados nossos dados pessoais de identificação e, também, informações como tipo sanguíneo, exames feitos ao longo da vida, diagnósticos de doenças, enfim, um registro da nossa vida de saúde”, explica Gadelha. Ele compara o portal da saúde ao site de um banco, onde cada cliente tem um espaço com seus dados armazenados. E, como no internet banking, o acesso a uma parte importante desses dados – o histórico médico – será restrito ao próprio cidadão, ou a quem ele autorizar, uma vez que o Código Civil brasileiro determina que as informações de saúde do paciente são propriedade dele.
O portal da saúde que o Datasus está construindo terá um sistema de senhas para garantir o sigilo de informações protegidas. “Alguns dados serão abertos, como o nome da pessoa, idade, nome da mãe, município em que reside, além de informações pontuais como alergias, por exemplo. Mas doenças que não são de notificação compulsória não serão abertas”, afirma o diretor do Datasus. A ideia, segundo ele, é que o atendente de qualquer unidade básica de saúde do país tenha acesso às informações de identificação do paciente; mas só o médico possa acessar seu prontuário eletrônico.
Hoje, o SUS tem um cadastro com 192 milhões de registros de indivíduos atendidos em suas unidades de serviço ou hospitais públicos, em todo o país. Esse cadastro será a base do novo sistema integrado de saúde, com acesso pela internet, que está começando a ser implantado no Brasil. Mas, antes disso, ele terá que passar por um processo de limpeza, para eliminar os casos de duplicidade de registro – que são muitos.
Ao mesmo tempo, o Datasus está reforçando sua infraestrutura de Tecnologia da Informação (TI), para atender ao aumento da demanda de solicitações, e desenvolvendo um sistema que permitirá a interoperabilidade com os sistemas de saúde municipais. Afinal, diversas prefeituras no país já implantaram sistemas de gestão da saúde, que incluem o prontuário eletrônico do cidadão. Só que são sistemas isolados, que não “falam” com outros. A expectativa é que, dentro de dois anos, esse sistema atinja 80% da população brasileira – e, em quatro anos, cubra o restante.
Além de facilitar e dar mais agilidade ao atendimento do cidadão, o prontuário eletrônico nacional deverá trazer uma série de benefícios aos gestores de saúde pública. Nos Estados Unidos, um levantamento realizado pela Healthcare Financing Administration (HFA) mostrou que o prontuário eletrônico pode reduzir em US$ 600 o custo por paciente atendido, em função, principalmente, da eliminação de procedimentos médicos desnecessários, de trabalhos repetidos e de exames em duplicidade.
“No Brasil, esses dados ainda não foram levantados, mas especialistas no assunto sinalizam com valores bem mais altos”, diz a biomédica Maria José Galvão, que atua há 30 anos na área de saúde – inclusive como secretária municipal das cidades de Cerquilho e Tatuí, ambas no interior de São Paulo. Maria José participou da implantação do sistema Data Health – Prontuário Eletrônico e Gerenciador de Saúde em Tatuí, município onde foi realizado o projeto piloto dessa solução. Desenvolvido pela empresa Global Data, também de Tatuí, o Data Health funciona em ambiente web e possui um cadastro único centralizado, com informações completas dos pacientes, de acordo com as normas operacionais básicas do SUS.
Seu sistema de prontuário eletrônico permite a inserção de dados por diferentes profissionais da área de saúde, além do médico. Para isso, oferece a possibilidade de configuração das sessões e inclui recursos como odontograma (e outras telas para o atendimento odontológico), histórico de enfermagem e anamnese com telas de atendimento personalizadas para diversas especialidades. O acesso ao prontuário eletrônico é controlado por meio do uso de biometria (impressão digital) do paciente e, também, de recursos como senha e cartão magnético.
A experiência piloto em Tatuí foi realizada em 2006 e, em junho do ano seguinte, a Secretaria Municipal de Saúde começou a utilizar o Data Health. Um ano depois, ao medir os primeiros resultados, constatou que o atendimento de enfermagem em sua rede básica havia aumentado 54% no período, a conta de telefone caiu quase 14% e a economia com impressos chegou a 55%. Com o tempo, outros benefícios relevantes foram observados pelos gestores. Entre eles, destacam-se o cadastramento e agendamento on-line de consultas entre as unidades básicas de saúde, a diminuição da quantidade de exames complementares solicitados aos pacientes, o maior controle em relação às faltas desses pacientes e a possibilidade de obter relatórios de epidemiologia por unidade ou bairro. Atualmente, além de Tatuí, o Data Health está implantado nos municípios de Angatuba, Cerquilho, Pereiras, Cajamar e Porangaba, em São Paulo, e em São Bento do Sul, em Santa Catarina. Ao todo, segundo Maria José, cerca de 300 mil pacientes estão cadastrados no sistema.
Medicamentos sob controle Em Belo Horizonte, o prontuário eletrônico vem sendo utilizado desde 2002. O sistema foi desenvolvido pela própria Secretaria de Saúde da capital mineira, a partir de outro software, fornecido por um hospital de São Paulo. “Fizemos a customização desse sistema, com foco na atenção primária”, explica Neuslene Queiróz, gerente de Tecnologia e Informação da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte. “Hoje, esse sistema fornece o prontuário completo do paciente, com informações sobre agendamentos, atendimentos realizados, solicitações de exames e outros procedimentos, resultados de exames e medicamentos prescritos. Tudo isso fica registrado em um prontuário único.”
O sistema está implantado em todas as 147 unidades básicas de saúde de Belo Horizonte e em 80% da rede complementar, que consiste em clínicas especializadas – a meta é concluir a implantação até o final do ano. Além disso, Neuslene revela que a Secretaria está desenvolvendo o módulo de urgência, com o qual pretende completar a informatização de sua rede de saúde. “A ideia é ter todo o atendimento na rede assistencial, do básico até a urgência, baseado em um único prontuário eletrônico”, diz ela.
Em nove anos de utilização, o sistema trouxe vários resultados positivos. Para o cidadão, reduziu o tempo de espera por atendimento e vem evitando deslocamentos de um ponto a outro da cidade para agendar consultas. Para o gestor, entre outras vantagens, o prontuário eletrônico permitiu acabar com a duplicidade de exames – comum quando o paciente era atendido em diferentes unidades de saúde da rede – e racionalizar a distribuição de medicamentos. Hoje, o sistema tem 2,2 milhões de pacientes cadastrados – muitos em duplicidade – e está instalado na intranet da prefeitura de Belo Horizonte. O objetivo é modernizá-lo, o que envolve sua transferência para plataforma web. Com isso, além das unidades da rede municipal de saúde, também as clínicas, consultórios e a rede conveniada poderão ter acesso ao sistema.
Curitiba também está transferindo da intranet para ambiente web o sistema de informatização da saúde – com prontuário eletrônico –, que começou a ser implantado no município em 1999. Desenvolvido pelo Instituto Curitiba de Informática em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde, o sistema hoje é utilizado em 109 unidades básicas de saúde, oito centros de urgência médica e em três ambulatórios especializados que fazem parte da rede pública.
“Todo o histórico do paciente cadastrado está registrado no prontuário eletrônico: anamnese, avaliações de risco (por exemplo, hipertensão), orientações e consultas, procedimentos terapêuticos, exames e medicamentos recebidos”, resume a médica Eliane Regina da Veiga Chomatas, secretária da Saúde de Curitiba. “São dois mil computadores na rede, que hoje não usa mais papel. Os resultados de exames laboratoriais, por exemplo, vão direto para o sistema”, afirma.
Para ela, o prontuário eletrônico é uma ferramenta de gestão valiosa, que permite atender com eficiência um número expressivo de pacientes. Em Curitiba, por exemplo, o sistema viabiliza a realização de mais de 2,5 milhões de consultas médicas por ano, só na rede básica de saúde. Além disso, facilita o acompanhamento de mais de 100 mil pacientes hipertensos e 35 mil diabéticos que estão registrados nessa rede. E contribui para o atendimento de 650 casos por dia, em média, em cada uma das oito unidades de urgência médica do município.
Saúde conectada O governo do Distrito Federal adotou o prontuário eletrônico em maio de 2006, ao implantar o projeto do Sistema Integrado de Saúde (SIS). A solução escolhida para isso é o TrakCare, da empresa norte-americana InterSystems, que oferece uma série de módulos integrados voltados para a gestão de informações clínicas e administrativas de unidades de saúde e hospitais.
A implantação do sistema começou com um piloto na região de Samambaia e hoje, segundo a InterSystems, esse é o maior projeto de saúde conectada via web do Brasil – o TrakCare é totalmente baseado no ambiente internet. Atualmente, o sistema integra sete hospitais (Samambaia, Guará, Gama, Brazilândia, Asa Norte, Asa Sul e Hospital de Base), 20 centros de saúde, uma unidade de pronto atendimento (UPA) e 13 laboratórios de diagnóstico do Distrito Federal, num total de 10 mil usuários ativos. A meta é ampliar o uso do SIS, de modo a cobrir 15 hospitais, 63 centros de saúde, quatro UPAs e 22 laboratórios de diagnósticos da rede estadual de saúde.
A peça-chave do sistema é o prontuário eletrônico, que reúne todas as informações necessárias para o acompanhamento clínico e assistencial do paciente. “O gerenciamento de todo o histórico clínico, com um prontuário único, do usuário da Saúde é um dos principais benefícios obtidos com o SIS”, afirma José Carlos Esteves, subsecretário de Tecnologia da Informação da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Segundo ele, hoje o sistema tem cerca de 2,5 milhões de prontuários cadastrados de pessoas que buscam atendimento em Brasília.
Esteves destaca ainda outros benefícios trazidos pelo sistema: integração da informação disponível para todas as unidades da rede de saúde do governo do Distrito Federal; disponibilidade de dados sobre o perfil populacional dos usuários atendidos na rede pública; agendamento on-line de consultas e exames; controle do fluxo de pacientes, de modo a coordenar com eficiência todas as ações necessárias para o diagnóstico e tratamento de cada caso; acesso a dados e detalhes de todos os dispositivos de saúde nos diversos níveis (atenção básica, atendimento especializado, emergências e internações); prescrição de medicamentos via receita eletrônica; controle de leitos, consultas, campanhas de vacinação e outros instrumentos necessários para o gerenciamento da Saúde e, ainda, a possibilidade de construção de indicadores destinados a nortear a qualidade das ações e serviços oferecidos à população.
De acordo com a InterSystems, a utilização do sistema já permitiu uma redução de custos de até 50% na área de gestão de medicamentos. Isso porque a prescrição médica digital é acessada pela farmácia, o que evita erros de interpretação e garante o recebimento do medicamento correto pelo paciente. Além disso, a digitalização das informações do estoque da farmácia também contribui para esse resultado, na medida em que evita compras equivocadas, distribuição indevida e controla o vencimento dos medicamentos.
Na área de gestão de exames laboratoriais, a InterSystems destaca que, além da maior agilidade no fornecimento de resultados e da economia com papel e toner de impressora, o uso da solução permitiu reduzir a perda dos resultados em até 20% após a retirada e 35% após a consulta. Houve também uma diminuição do número de exames por paciente internado – de 12 para quatro.
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